Aplicação da Lei Fundamental da Dinâmica de Rotações: A Máquina de Atwood
Aplicação da Lei Fundamental da Dinâmica de Rotações: A Máquina de Atwood
Nos estudos da mecânica translacional, ou dos movimentos lineares, estudamos uma aplicação das leis de Newton: a máquina de Atwood. Entretanto, consideramos um caso ideal, desprezando a massa da polia componente do sistema.
Por outro lado, nos estudos da mecânica rotacional, ou dos movimentos circulares, temos à disposição um formalismo físico e matemático: a lei fundamental da dinâmica de rotações, em outras palavras, a segunda lei de Newton para rotações. Com essa nova ferramenta, podemos melhorar a análise física da máquina de Atwood, agora levando em conta a massa da polia.
Neste post, vamos analisar as equações de movimento de um modelo mais geral da máquina de Atwood, considerando a massa da polia, mas sem incluir forças dissipativas.
Máquina de Atwood na Mecânica de Translações
A máquina de Atwood ideal é um sistema composto por uma polia de massa desprezível, uma corda inextensível (que não se alonga), e duas massas, $m_1$ e $m_2$. Dessa forma, a tensão $T$ na corda é a mesma em ambos os lados da polia.
Para o sistema ter uma aceleração $a$ é necessário que as massas envolvidas sejam diferentes. De forma arbitrária, vamos considerar $m_1 > m_2$. Assim, conforme a orientação dos vetores ilustrados na imagem, ao adotar um sistema de coordenadas arbitrário em que o sentido positivo é para cima e o negativo para baixo, e aplicando a segunda lei de Newton a cada massa, podemos escrever o seguinte sistema de equações. A partir dele, podemos determinar a aceleração $a$ do sistema. Vejamos:
$$T - m_1g = - m_1 a$$
$$T - m_2g = m_2 a$$
Isolando $T$, temos:
$$T = - m_1 a + m_1g$$
$$T = m_2 a + m_2g$$
Sabendo que a tensão $T$ é a mesma nas duas equações, podemos simplificar o sistema dividindo uma equação pela outra. Assim, escrevemos:
$$1 = \frac{-m_1a + m_1g}{m_2a + m_2g}$$
Nosso interesse é isolar a variável $a$. Então, da equação acima, podemos escrever:
$$m_2a + m_2g = - m_1a + m_1g $$
$$m_2a + m_1a = m_1g - m_2g$$
$$(m_2 + m_1)a= (m_1 - m_2)g$$
$$ a= \frac{(m_1 - m_2)}{m_2 + m_1}g$$
Essa expressão final mostra que o movimento do sistema depende unicamente das massas envolvidas, uma vez que a aceleração da gravidade $g$ é constante em qualquer situação nas proximidades da superfície terrestre.
Máquina de Atwood na Mecânica de Rotações
As equações do movimento para cada massa, $m_1$ e $m_2$, respectivamente, são:
$$T_1 - m_1g = -m_1a$$
$$T_2 - m_2g = m_2a$$
$$\tau_R = I\alpha$$
Onde $\tau_R$ é o torque resultante sobre a polia, $I$ é o momento de inércia da polia e $\alpha$ é aceleração angular da polia. No entanto, podemos relacionar todas essas grandezas angulares com as suas respectivas grandezas lineares. Por ora, vamos manter a escrita do momento de inércia $I$, pois não definimos uma forma explícita para a polia.
Dessa forma, ao relacionar o torque resultante com as forças de tensão sobre a polia, adotando a rotação no sentido anti-horário como positiva — onde $T_1$ causa um torque no sentido anti-horário e $T_2$ causa um torque no sentido horário —, e considerando que as forças de tensão são aplicadas tangencialmente à polia, escrevemos:
$$\tau_R = \tau_1 - \tau_2$$
$$ \tau_R = T_1 R - T_2 R$$
$$\tau_R = (T_1 - T_2) R $$
Para a aceleração angular $\alpha$, temos:
$$\alpha = \frac{a}{R}$$
Assim, a equação do movimento da polia, em termos das grandezas lineares, fica:
$$(T_1 - T_2)R = I (\frac{a}{R})$$
$$T_1 - T_2 = I \frac{a}{R^2}$$
Portanto, temos um sistema com três equações:
$$T_1 - m_1g = -m_1a \tag{1}$$
$$T_2 - m_2g = m_2a \tag{2}$$
$$T_1 - T_2 = I \frac{a}{R^2} \tag{3}$$
Resolvendo esse sistema de equações, determinamos uma expressão para a aceleração $a$ do sistema. Desse modo, ao subtrair a segunda equação da primeira equação, temos:
$$T_1 - m_1g - (T_2 - m_2g) = -m_1a - (m_2a)$$
$$T_1 - T_2 - m_1g + m_2g= -(m_1+ m_2)a$$
Isolando a diferença entre as duas forças $T_1$ e $T_2$, escrevemos:
$$T_1 - T_2 = -(m_1+ m_2)a + m_1g - m_2g$$
Simplificando,
$$T_1 - T_2 = -(m_1+ m_2)a + (m_1 - m_2)g$$
Como a diferença entre as duas forças $T_1$ e $T_2$ aparece tanto na terceira equação do sistema de equações, quanto nesse último resultado, podemos igualar as duas expressões. Vejamos:
$$ -(m_1+ m_2)a + (m_1 - m_2)g = I \frac{a}{R^2}$$
Isolando $a$, temos:
$$ (m_1 - m_2)g = I \frac{a}{R^2} + (m_1 + m_2)a$$
$$ (m_1 - m_2)g = (\frac{I}{R^2} + m_1 + m_2)a$$
$$ a= \frac{(m_1 - m_2)g}{\frac{I}{R^2} + m_1 + m_2}$$
Essa última equação expressa que o movimento do sistema depende exclusivamente das massas envolvidas, $m_1$ e $m_2$, e das propriedades inerciais da polia, representadas pelo termo $\displaystyle \frac{I}{R^2}$.
Dessa forma, para o caso em que o momento de inércia $I$ da polia é considerado equivalente ao de um disco homogêneo, com o eixo de rotação perpendicular ao plano do disco e passando pelo seu centro ($\displaystyle I = \frac{MR^2}{2}$), escrevemos:
$$ a= \frac{(m_1 - m_2)g}{\frac{M}{2} + m_1 + m_2}$$
Com essa expressão, determinamos a aceleração do sistema levando em conta a massa da polia, o que torna a análise mais realista em comparação ao modelo idealizado da máquina de Atwood.
Bibliografia
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. 8ª ed. Rio De Janeiro: Ltc, 2009. v. 1
NUSSENZVEIG, H. M. Curso de Física Básica. 1, Mecânica. São Paulo, Brasil: Blucher, 2018.

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